BAD: “Muitos países africanos não têm outra escolha senão endividar-se nos mercados”

BAD: “Muitos países africanos não têm outra escolha senão endividar-se nos mercados”

O presidente do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) admitiu esta sexta-feira (25) que muitos países “não têm outra escolha” senão endividar-se nos mercados financeiros internacionais devido à urgência no desenvolvimento e à redução do financiamento concessional.

“O financiamento concessional [crédito no âmbito da ajuda ao desenvolvimento] está numa tendência decrescente, e muitos países africanos não têm outra escolha senão ir aos mercados de capitais porque não podem esperar para financiar o desenvolvimento económico, há um sentimento de urgência nestas operações”, disse Akinwumi Adesina à Lusa, no final dos Encontros Anuais do BAD, que terminaram hoje em Busan, na Coreia do Sul.

Em segundo lugar, respondeu Adesina sobre a subida das emissões de dívida para níveis recorde este ano, “isso também acontece porque cada vez mais países são avaliados pelas agências de notação financeira e portanto, como têm ‘rating’, têm um acesso mais facilitado aos mercados”.

O problema, reconheceu, são as taxas de juro: “Se algum país for ao mercado, paga a Libor acrescida de 9,5%, enquanto nós conseguimos emprestar esse dinheiro a Libor mais 1,1%, portanto há aqui uma diferença”, vincou o banqueiro.

O financiamento concessional, ou seja, a taxas de juro mais baixas do que as praticadas pelas instituições financeiras comerciais e geralmente com prazos mais longos, “tem de ter uma tendência crescente, o que é muito importante para os países de baixo rendimento, até para poderem alavancar os outros empréstimos comerciais e consegui-los a taxas razoáveis”, disse Adesina, explicando, no entanto, que não é aqui que está o motor do desenvolvimento.

“Pessoalmente, não acredito que os países se desenvolvam baseados em empréstimos, mas sim na disciplina dos investimentos”, disse o presidente do BAD nas declarações à Lusa, sublinhando que é preciso garantir que os recursos são adequados à especificidade de cada país e estão disponíveis”.

Antes, na conferência de imprensa de encerramento dos Encontros Anuais, Adesina tinha elogiados os governadores dos 80 países que são os accionistas do BAD por terem aprovado o início das negociações que deverão conduzir ao aumento de capital do BAD.

“Os accionistas aprovaram o lançamento de discussões para aumentar o capital do BAD, o que é um sinal muito, muito positivo, e é um grande apoio para o BAD fazer mais em África”, disse, acrescentando: “Aceito o desafio”.

No relatório sobre a eficácia dos financiamentos e da organização do Banco, apresentado aos governadores durante esta semana, a comissão de avaliação desta área refere que o banco está a aumentar as operações e a sua eficácia, segundo o vice-presidente Charles Boamah.

“Há boas razões para estar optimista relativamente à industrialização nos próximos anos”, comentou Adesina na secção especial do relatório sobre este tema.

“África está aberta para os negócios, com economias estáveis e ambientes de negócios amigáveis, tem uma força de trabalho jovem e a aumentar, e que se perspectiva cada vez mais global; a urbanização e o aumento das classes médias africanas estão a abrir novos mercados, o que funciona como um íman para os investidores”, argumentou o presidente do BAD.

De acordo com o comunicado de imprensa que acompanha o relatório, no ano passado o Banco “providenciou acesso a transportes a 14 milhões de pessoas, construindo ou reabilitando 2.500 quilómetros de estradas e ajudou 210 mil pequenas e micro-empresas a acederem a financiamento, o que beneficiou 2,6 milhões de pessoas”.

A reunião dos governadores do BAD terminou hoje na Coreia do Sul e teve como tema oficial ‘Acelerando a Industrialização de África’, e decorre num contexto de crescimento fraco no continente e de dívida pública excessiva.

Os Encontros Anuais são uma das maiores reuniões económicas sobre o continente africano, juntando chefes de Estado, accionistas de referência no sector público e privado, governadores dos 80 bancos centrais que são accionistas do BAD e académicos e parceiros para o desenvolvimento.

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