CONCERTAÇÃO SOCIAL: Conseguimos o salário possível

CONCERTAÇÃO SOCIAL: Conseguimos o salário possível

– Alexandre Munguambe, secretário-geral da OTM-CS

A Organização dos Trabalhadores Moçambicanos-Central Sindical (OTM-CS) diz estar ciente de que a celebração do 1.º de Maio neste ano, que se assinala nesta terça-feira, não será de beijos e abraços, uma vez que não deu para negociar um aumento salarial capaz de atenuar o custo de vida.

Em entrevista concedida ao nosso jornal, o secretário-geral da OTM-CS, Alexandre Munguambe, mostra-se triste por o sindicato não ter conseguido negociar um aumento salarial digno desse nome.

Não podemos falar de aumento ou reajuste salarial”.

Por causa disso, afirma que os trabalhadores que irão às ruas e avenidas para celebrar o Dia Internacional dos Trabalhadores (1.º de Maio) farão críticas também aos empregadores por causa dos resultados que foram alcançados na concertação social deste ano.

Nas linhas que se seguem, deixamos que seja o próprio secretário-geral a explicar  o que falhou na discussão sobre o salário mínimo, desafios desta organização e o que anda a fazer a OTM-CS no intervalo entre um debate sobre o aumento salarial e outro.

Trabalhadores de tudo o mundo vão celebrar o seu dia na terça-feira. No nosso caso, o que nos será dado a assistir?

Teremos um 1.º de Maio bastante crítico ao sector empresarial e ao sindicato por não termos conseguido negociar um aumento salarial melhor e capaz de atenuar o actual custo de vida.

Com razão?

Sim, vão fazê-lo com toda a razão porque, na verdade, não conseguimos ajustar os salários aos níveis que pudessem satisfazer os trabalhadores e a nós mesmos.

Que níveis é que seriam razoáveis?

Pelo menos se tivéssemos conseguido um reajuste global que cobrisse a inflação registada ao longo do ano passado (2017), que foi de 15 por cento. Aí estaríamos minimamente acomodados porque teríamos conseguido colocar os trabalhadores com um poder de compra do ano passado.

Em todos os sectores?

Foram muito poucos os sectores que conseguiram chegar a esse patamar, o que significa que não repusemos o poder de compra dos trabalhadores. Por isso, não podemos falar de aumento ou reajuste de salários.

Assim sendo, como olha para o resultado que obtiveram nas negociações deste ano?

Conseguimos o possível dado que os empregadores, em algum momento, ameaçavam fechar as empresas por incapacidade de pagar salários. Desta forma, os sindicatos foram colocados numa situação em que tiveram de aceitar os actuais níveis de reajustamento para assegurarem a manutenção dos empregos existentes actualmente ou haveria uma situação de empresas a fecharem.

NEGOCIAR COM UM PÉ ATRÁS

Tem recebido queixas de trabalhadores por causa do encerramento de empresas?

Sim. Existem empresas que fecharam, apesar de que, na nossa opinião, os fundamentos para o encerramento destas não tem nada a ver com aumentos ou ajustes de salários. Também como organização sindical não podemos tomar decisões para ver o que vai acontecer. Temos de prevenir e manter os empregos existentes.

Afinal, qual tem sido a vossa estratégia de negociação?

Em primeiro, temos de manter os empregos já existentes e, em segundo, procurar ver se as empresas podem se organizar para absorver mais pessoas que estão no desemprego.

O que isso significa?

Durante as negociações não olhamos apenas para a situação dos trabalhadores empregados, mas temos de olhar também para aqueles que estão à procura de trabalho. É preciso notar que estamos numa grande desvantagem no país, uma vez que os índices de desemprego são altos. Isso quer dizer que os que estão empregados reclamam de aumento, mas na porta da fábrica existem pessoas à procura de emprego e que estão dispostas a trabalhar por um salário mais baixo. Isso é muito complicado no sindicalismo porque a entidade patronal sabe que existem pessoas dispostas a trabalhar por um salário mais baixo.

Como se sai desta situação, tendo em conta a conjuntura económica?

O conselho não pode ir só para o trabalhador, estende-se também para as direcções das empresas que devem rentabilizá-las, aumentando a produção e a produtividade. Para que isso ocorra deve haver uma interacção muito forte entre a entidade empregadora e os trabalhadores. A gestão das empresas deve ser transparente e os trabalhadores devem sentir-se parte da empresa. Devem saber que se a firma encerrar vão ao desemprego e não terão nem o pouco salário.

Falou em aumento da produção e produtividade, mas temos ouvido reclamações dos empregadores sobre o absentismo laboral. Como é que a OTM-CS olha para isso?

No sindicalismo costumamos dizer que “se você finge que está a pagar, nós fingimos que estamos a trabalhar”. Os funcionários públicos e até privados não estão satisfeitos com os seus salários e qualquer trabalhador que esteja numa situação em que ser expulso ou permanecer não faz diferença não respeita. Há descontentamento nas empresas e instituições e é por isso que há corrupção, que é entendida pelos seus praticantes como “forma de garantir a sobrevivência”.

Quais são os problemas emergentes dos trabalhadores?

Estamos a gerir os mesmos problemas de sempre porque o que ganhamos não chega para garantir o nosso sustento. O transporte subiu em 33 por cento, mas o salário aumentou em apenas seis por cento. Tudo sobe menos o salário. O que tem estado a acontecer é um congelamento de salário porque a inflação está alta.

Fonte: Domingo

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