Ensaio Mercedes-Benz S 400 d: “1001 Noites” de requinte e luxo

Ensaio Mercedes-Benz S 400 d: “1001 Noites” de requinte e luxo

Estar a bordo do recém-renovado Mercedes-Benz Classe S é uma fonte de ambiguidade, na medida em que este é um automóvel em que estar no lugar do condutor é apenas uma parte da experiência. A outra é viajar no banco traseiro, aproveitando as comodidades da vida e todo o luxo que este S 400 d tem para oferecer. E acredite que esse requinte é mesmo muito.

O novo Classe S não é propriamente novo. É, antes, uma atualização de meio de ciclo desta gama lançada em 2013 e da qual a Mercedes-Benz demonstra um ostensivo orgulho. Ainda assim, face à concorrência que se aproxima – como a do Audi A8 -, o Classe S renovou-se e a marca não fez por menos. Alterou ou redefiniu cerca de 6000 componentes. O resultado é, nada mais, nada menos, do que uma berlina executiva Premium que procura assumir a liderança de um segmento que é sobretudo estatutário. Daí que esta seja uma gama em que a estrela dianteira segue posicionada no topo do capot. Técnica e tecnologicamente, muita coisa está mudada no Classe S.

Agarrado ao volante

Indo por partes. A primeira experiência é a de condução. E o Classe S tem uma dinâmica que o posiciona como uma das melhores combinações entre comportamento e conforto do mercado. Apesar do grande porte e dos cinco metros de comprimento, este Classe S sente-se tremendamente ágil, fazendo esquecer as suas reais dimensões. As transferências de massas em curva são contidas de forma eficaz e o equilíbrio é notável, sobretudo com o modo Sport ativado, que altera alguns parâmetros para uma condução mais desportiva.

A direção ganha maior resistência, a caixa 9G-tronic – um exemplo de suavidade e eficácia – torna-se mais veloz na passagem de relações e o acelerador ganha outra impulsividade. O amortecimento, mercê da suspensão pneumática adaptável Airmatic, permite maior controlo de movimentos, reduzindo de forma acentuada o rolamento da carroçaria e as próprias oscilações verticais da carroçaria. Desta forma, evita-se uma sensação de condução demasiado filtrada do piso, mas ainda assim deveras competente em termos de conforto. Surpreende, sobretudo, pela sensação de ligeireza ao volante, com uma precisão assinalável a curvar sem que, com isso, prejudique aquela sobriedade que faz a Mercedes-Benz ter tanto orgulho neste espécime de poderio teutónico.

O motor Diesel deste S 400 d é uma das outras novidades da renovada geração. Com arquitetura de seis cilindros em linha e 2.9 litros de cilindrada, esta unidade deixa bem patente um refinamento imenso e uma veemência nas prestações que fazem deste modelo uma agradável surpresa. Com 340 CV de potência, assume notória intensidade quando se imprime um ritmo mais forte, permitindo prestações que, à partida, lhe poderiam parecer inalcançáveis: a título de exemplo, a aceleração dos 0 aos 100 km/h cumpre-se em 5,2 segundos, garantindo assim arranques fugazes quando necessário. Por outro lado, nas viagens mais pacatas, deixa à vista toda a sua genica, fruto de uma combinação acertada com a caixa de velocidades automática de nove velocidades que lhe permite sempre tirar o melhor partido do binário de 700 Nm logo às 1200 rpm. Potente e eficaz, eis um motor de elevada craveira que assenta que nem uma luva ao carácter refinado – e ocasionalmente explosivo – do Classe S. O sistema de tração integral 4Matic também acentua a sua impulsividade e precisão em curva já que mantém os dois eixos em linhas imaginárias bem delineadas que dificilmente são perturbadas. Mas, sobretudo, sente-se bem a impulsividade…

O sistema de travagem com discos ventilados e perfurados (na frente) serve na perfeição o seu propósito de abrandar com rapidez estas mais de duas toneladas, mostrando igualmente bom tato no pedal do travão.

O consumo médio apontado pela Mercedes-Benz é de 5,7 l/100, mas esse é muito otimista. No nosso teste, obtivemos 8,4 litros que, não sendo valor exorbitante, adequa-se bem a um conjunto que fica ligeiramente acima das duas toneladas de peso (2060 kg) e que tem 340 CV de potência. Ou seja, é bastante aceitável para uma utilização real quotidiana.

Qualidade a quanto obrigas

Além disso, a precisão e orientação de todos os comandos continua a ser de nível referencial, mesmo que a este nível é algo que se pode esperar de todos os competidores numa classe em que os detalhes marcam a diferença. No caso do S 400 d, nota para o sistema de instrumentação digital associado ao ecrã de infoentretenimento para um visual ‘wide’ composto pelos dois ecrãs de 12.3 polegadas cada. Esta solução atribui um requinte tecnológico ao Classe S, com leitura perfeita de todas as indicações – quer do painel de instrumentos, quer dos sistemas tecnológicos como a navegação – sendo que o condutor pode optar por três estilos de mostradores: Desportivo, Progressivo e Clássico, este último a evocar o estilo mais tradicional. A qualidade dos materiais está igualmente num patamar superior, com madeira negra aplicada em locais como o tablier ou portas, conjugando-se assim da melhor forma com revestimentos em pele debruados com pespontos em padrões diamantados (ver imagem abaixo)

Ao nível sensorial, os bancos têm ajuste elétrico, massagem incorporada (acreditem que acabar um dia às 20h com massagem lombar quente tem outro encanto…), aquecimento e arrefecimento, permitindo dessa forma uma multiplicidade de acertos e comodidades que aproximam o seu habitáculo do de um lounge de luxo. Os modos Energizing que alteram a ambiência e o ‘mood’ a bordo consoante o desejo e o estado de espírito do condutor ou conduzido é um apontamento interessante, mas na verdade, é mais um argumento teórico do que uma razão essencial. Com estes modos, alteram-se parâmetros como a climatização, a fragrância do habitáculo, a música e a massagem dos bancos. Interessante, mas pode fazê-lo por si mesmo, individualmente. A este respeito, as imensas opções de iluminação ambiente são detalhe apelativo – há 64 à escolha…

Agora, no banco de trás

Aqui, a outra parte da experiência deste Classe S. Estar atrás é um dos predicados de grande excelência deste Mercedes-Benz. Bancos que se assemelham a poltronas confortáveis, com ajuste elétrico do encosto, aquecimento e ventilação. À frente dos dois lugares laterais traseiros, cada banco tem direito a um ecrã (com comando remoto) que permite aceder a ficheiros multimédia ou a dados da viagem. No encosto de cabeça uma almofada confortável que parece apelar a uma ‘power nap‘ (sesta retemperadora do ânimo), embalados pela suavidade do rolamento. Enfim, uma experiência que merece ser, também ela, vivida a bordo, porque o Classe S tem essa característica peculiar – o lugar do condutor é apenas um dos que deve ser abordado. E, para o escriba de serviço, ficou o lamento de não haver ‘motorista’ de serviço para nos levar a passear mais vezes.

Quanto a espaço, nada que lhe retire méritos. Muito espaço para as pernas – embora esta fosse a versão mais curta

‘Autobot’ a postos

Um dos privilégios deste Classe S é o da condução autónoma que lhe permite – onde tal for legal – cumprir alguns trajetos sem intervenção do condutor (ainda que este seja chamado a intervir de forma frequente). Em termos de avanço tecnológico, o conjunto desenvolvido pela marca alemã é um dos melhores do mercado (se não o melhor), conseguindo guiar-se sozinho entre faixas – literalmente, não esperando que se acerque dos traços delimitadores – sempre adaptando a sua velocidade e distância ao veículo que o precede com o cruise control adaptativo (no léxico da Mercedes-Benz, chama-se Distronic Plus). Eis mais um dos muitos elementos opcionais que compõem o ramalhete deste Classe S, que tem uma generosa lista de equipamento acessório que pode ser equipada a preceito.

Com efeito, se o preço de base desta versão do Classe S já se coloca num patamar ‘altito’ de 125.750€, o conjunto de opcionais eleva o custo final da unidade ensaiada para os 165.642€. Para este valor contam-se sistemas como a linha AMG (2500€), acabamentos em madeira preta porosa (650€), Pack Exclusive (7900€), Pack Entretenimento Traseiro (3350€) ou o Pack Premium Plus, que inclui os bancos dianteiros climatizados com aquecimento e ventilação, Pack Remote Parking com sistema de estacionamento ativo com PARKTRONIC, câmara 360º, Pack Keyless-Go, teto de abrir panorâmico, sistema hidro-pneumático do fecho das portas “soft close”, Pack de Assistência à Condução Plus, estofos em Pele Comfort, bancos dianteiros multi-contorno dinâmicos com função de massagem e sistema de som Burmester. O preço deste pack? Módicos 13.500€. E são totalmente merecidos.

VEREDICTO

 

O estilo fá-lo passar quase despercebido, mas o renovado Classe S é um compêndio de tecnologia e de requinte que está num patamar muito elevado. Esta berlina Premium recorre a uma conjunção de atributos, como o impressionante motor turbodiesel bi-turbo que tem um vigor e suavidade impressionantes para as suas dimensões. Além disso, a sua prestação dinâmica também surpreende pela positiva, com agilidade apreciável que lhe permite mover-se com veleidade por percursos sinuosos quando se quer ‘chocalhar’ o convidado no banco de trás ou ‘mimá-lo’ com mordomias no âmbito do conforto. A começar, claro, pela qualidade de rolamento e pela insonorização a bordo.

O preço está longe de ser acessível. Nem poderia ser, neste segmento, mas a Mercedes-Benz tem aqui um conjunto que faz por justificar os mais de 100 mil euros pedidos por este seu Classe S 400 Diesel. Melhor seria se uma grande parte dos opcionais estivesse já incluída nesse valor em vez de estar nos opcionais. Contudo, admitidamente, quando se está neste patamar de conforto, venham de lá esses bancos com massagem que, depois de experimentados, já não se quer saber do preço.

FICHA TÉCNICA

MERCEDES-BENZ CLASSE S 400 D 4MATIC
Motor: Diesel, seis cilindros em linha, injeção direta, bi-turbo, intercooler
Cilindrada: 2925 cm3
Potência: 340 CV/3600-4400 rpm
Binário máximo: 700 Nm/1200-3200 rpm
Suspensão Dianteira: Multibraços, câmaras pneumáticas AIRMATIC, adaptativa
Suspensão Traseira: Multibraços, câmaras pneumáticas AIRMATIC, adaptativa
Tração: Integral
Caixa: Automática de nove velocidades (9G-tronic), conversor de binário
Aceleração (0-100 km/h): 5,2 segundos
Velocidade máxima: 250 km/h (limitada)
Consumo médio (medido) em l/100 km: 5,7 (8,4)
Emissões de CO2: 150 g/km
Peso: 2060 kg
Bagageira: 510 litros
Comprimento/Largura/Altura (mm): 5125/1930/1493
Distância entre eixos (mm): 3035
Preço base (ensaiado): 125.750€ (165.642€)


AIRMA-QUÊ?

Para os mais distraídos, a suspensão Airmatic é um sistema de longa data na marca alemã, tratando-se, na prática, de uma sistema de amortecimento variável com câmaras pneumáticas que lhe permitem variar a altura da carroçaria ao solo em até 60 mm (para cima ou para baixo). Ou seja, acima dos 120 km/h, a distância ao solo é reduzida em 20 mm (para melhor dinamismo), podendo também ser elevada em 40 mm (face à altura padrão) no caso de ativado um comando no habitáculo que permite subir a suspensão para superar passeios ou desníveis mais profundos. No caso deste Classe S, permite ao Classe S registar uma prestação dinâmica muito elogiosa, uma vez que mantém esta berlina e as suas mais de duas toneladas com uma trajetória e condução de elevada precisão e segurança.

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