O jazz é a escola onde esta geração dá aulas

O jazz é a escola onde esta geração dá aulas

A construção de uma obra de arte é um exercício aturado, que envolve um investimento alto, estudo e, se tratando de performance, constante ensaio. Foi o que ficou claro nas apresentações dos três instrumentistas que actuaram, há dias, na primeira edição “Jazz no Franco”.

Distintos na sua forma de conceber a música, mesmo porque lidam com instrumentos diferentes, saxofone e clarinete (Ivan Mazuze), guitarra solo (Walter Mabas) e teclado (do sul-africano) Sibusiso Mash Mashiloane, deram, digamos, aulas no Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM).

O mote foi a celebração do 30 de Abril, Dia Internacional do Jazz. Mas foi o afro-jazz que acabou nutrindo o evento, em meio a fusões que hasteiam a bandeira da identidade dos seus executantes, africanos, que, na base do jazz, recriam os seus próprios géneros musicais.

Regularmente, acompanhamos debates atacando a música feita actualmente. O argumento tende sustentar-se na comparação com o que se fazia antes (sobretudo antes de 2000), cuja forma e conteúdo era concebida para ser perene.

A acusação feita aos mais novos é de que têm sido tomados pela busca de protagonismo imediato, o que, invariavelmente, desemboca no efémero e instantâneo. Entretanto, sendo eles jovens, os três instrumentistas executaram repertórios que desmentem este posicionamento. Ou que há, pelo menos, jovens que embarcam numa linha diferente, investindo na seriedade do que fazem.

Notou-se, nesta juventude, um tratamento cuidadoso da obra artística e, é incontextável que há um exercício para a construção dos seus trabalhos, do artefacto (a música). São músicos com uma noção clara do que estão a fazer.

Assistimos a uma atitude que vai em contra-mão da percepção comum da arte enquanto mero objecto de lazer. Por conseguinte, reconhece-se que, tratando-se destes casos específicos, inclui-los nessa categorização seria um acto leviano e desprovido de verdade, chegando mesmo a reduzir o labor por de trás da performance.

Num contexto em que, diariamente, particularmente através da televisão e algumas estações de rádio, somos entalados por música plástica, em vídeos deploráveis, cujo condimento principal é o bamboleio das partes pudendas de jovens mulheres; e que, na vida pública, os artistas se comportam, ignorando o seu papel social; quem investe a sério, pode ser tomado por louco.

Outrossim, quando ainda assistimos vários casos de artistas, sobretudo músicos, ainda acorrentados a concepções arcaicas sustentadas pela ilusão de que a música resulta apenas da inspiração. O que se viu no Franco chega a ser uma aula.

É um facto consumado que o país possui uma larga margem de excelentes instrumentistas. É hora – já atrasados – de começar a olhar-se para a música com melhor atenção e dedicar-lhe um investimento com visões claras do que se pretende.

Com excepções, nota-se que há quem aposte na conceptualização do seu trabalho, que se esmeram em metódo para a sua execução, precisam emigrar para singrar, o que deixa a nú a nossa limitação na percepção do que fazem.

É aqui que se chama o papel da educação, pois o nível de avaliação e interpretação é o reflexo da nossa maturidade intelectual, enquanto sociedade. O nosso Sistema Nacional de Educação até tem, no nível primário, a disciplina de educação musical. Porém, é questionável a sua qualidade, mesmo porque há vários professores nessa cadeira, que se quer se dedicam a uma percepção profunda da música.

As artes, como se deve saber, são o reflexo do pensamento de uma epóca, de uma geração. Dai que, só para elucidar, podemos recorrer a Alexandre Langa para perceber o que incomodava a sociedade do seu tempo, por exemplo.

Num palco montado no jardim do CCFM, o guitarrista Walter Mabas, em quarteto, constituído por Nicolau Cauneque, no teclado, Hélder Gonzaga no baixo e Texito Langa, na bateria, apresentou o seu projecto de álbum, “Blue Window”.

O engenheiro informático que se deixou ficar pela constituição das conexões sonoras de que a música resulta, exibiu um trabalho que, como disse em entrevista a este matutino, se funda no jazz para explorar outras possibilidades.

A performance, do membro da banda Network Jazz, foi sendo constituída por várias fusões, onde se pode incluir o R&B, certo soul, com alguns fragmentos de Kwela e, claro, a marrabenta. Foi na interpretação em que Alfa Thulane emprestou a sua voz, que o género musical dominante na região sul de Moçambique, sobretudo Maputo, libertou-se.

Evidencia-se na sua música um vocabulário que exala fraseologias do afro-jazz. No concerto, valeu-lhe, além da forma peculiar de libertar os acordes da sua guitarra, a prestação de acompanhantes experimentados, de tal forma que a secção rítmica, Hélder Gonzaga e Texito Langa, exibia uma conexão fluida. Nicolau Cauaneque, igualmente, não deixou de contribuir com realce para a estrutura harmónica do projecto.

Eloquência no teclado

No mesmo palco, o pianista sul-africano, Sibusiso Mash Mashiloane, autor de “Amanz ‘Olwandle” e “Rotha – A Tribute to Mama” e professor na Universidade de KwaZulu Natal e Durban Music School, onde concluiu o seu mestrado em em em Jazz Performance, exibiu a sua fusão de funk, hip hop, gospel e música tradicional da África do Sul, desaguando no afro-jazz.

Em trio, tal qual o lendário Bill Evans, constituído por piano (teclado, no caso), baixo e bateria, exibiu-se, como fê-lo quando cá esteve, em Outubro, em digressão por Maputo e Matola. Num repertório, destacaram-se nas suas composições e performance, uma carga emocional. A executar de forma livre, mas com contornos melódicos e alterações nos acordes, que, surpreendentemente, convidam a uma série de imagens.

A voz é dispensável (apesar do baixo fazer alguns coros), na medida em que, com o teclado, que a piano, expressa-se eloquentemente. Embora, nalgumas peças se note um padrão rítmico repetitivo, o trio gozava de uma liberdade que era estimulada pelo seu líder.

Há claros traços de ter bebido do jazz tradicional, havendo, alguns momentos em que a sua execução nos levava a textura do saxofone. O seu conjunto, mesmo nos “arrastões”, como observou uma estudante de música, “nota-se que eles não se perdem, apesar de cada um estar a seguir o seu próprio norte”.

A metáfora do filho pródigo                                                    

A residir na Noruega, o saxofonista moçambicano Ivan Mazuze, era a figura que se destacava no cartaz, uma vez que depois do lançamento do seu último álbum, “Ubuntu” (2015), que dominou o repertório do concerto, não voltou a actuar em Maputo.

Acompanhado por Walter Mabas na guitarra, Hélder Gonzaga no baixo e Stelinho Mondlane na bateria, o “Professor Ivan”, como – sopra-se nos corredores -, carinhosamente o trata Jaco Maria, exibiu uma performance, na qual, a partir da comunicação com os instrumentistas, ficava clara a sua exigência.

Os resultados da entrega e esmero são que, actualmente ocupa o cargo de compositor e Representante Oficial de Música e Dança Folclórico Internacional e Nacional na Noruega. É líder artístico para o Førdefestivalen, Festival de música tradicional e músicas do mundo; Representante e Embaixador Cultural para Noruega na Diáspora do Género World Jazz através das Organizações Music Norway, Arts Council Norway e Forum de Jazz da Noruega.

O seu sopro limpo, já nos brindou com três álbuns, “Maganda” (2008), “Ndzuti” (2012) e “Ubuntu” (2015).

Fonte: Notícias

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